domingo, 18 de novembro de 2012
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
VIOLÊNCIA E FUGA
Violência e Fuga
A violência do
sistema escravista gerou a revolta do negro. A desconfiança e o medo caracterizavam,
reciprocamente, as difíceis relações entre senhores e escravos. Câmaras
Municipais disciplinavam, minuciosas, várias proibições. A Resolução nº 536, de 12/7/1858, do
Presidente João Darney de Avelar Brotero, aprova as Posturas da Vila da Lagoa Vermelha
(atual Boquim), que proibiam a venda de pólvora a escravos (art. 31) e não
permitiam que eles vendessem açúcar “sem ordem por escrito do seu senhor” (art.
40).
Os negros, vítimas maiores de todas as
calúnias. É o caso da chamada Rebelião dos Pardos, em Brejo Grande. Difundiu-se
a notícia de que os negros planejavam eliminar todos os brancos no dia de
Natal. A notícia chegou ao conhecimento do governo, motivando em 12/12/1827
sessão do Conselho da Província. O Conselho, naquela altura desesperado, chegou
a pedir o apoio da igreja para enfrentar e resolver o grave problema.
Resultado, não houve rebelião, ninguém foi eliminado, a Província em geral,
Brejo Grande de modo particular, viveu tranquila o seu Natal. Destruía-se mais
uma calúnia dos brancos escravistas.
O cativo enfrenta, em todos os lugares e
momentos, a agressividade de seus donos ou senhores. A consequência são os
levantes e, mais generalizadamente, as fugas. Em 1884, 36 escravos se revoltam
e participam de rebelião em Itaporanga, eliminando o feitor do Engenho Parati.
Repete-se, em outros pontos da Província, iguais e violentas sublevações.
O escravo fugia, especialmente das fazendas e
engenhos, formando quilombos que se estendiam do Litoral ao Sertão. Já em 1601,
escreve Felte Bezerra, os negros resistem aos castigos e perseguições dos seus
senhores. Edson Carneiro adianta que o Capitão-mór Fernão Carrilho, antes de
ser chamado para combater nos Palmares (1687-1709), tinha destroçado mocambos
de negros na Capitania de Sergipe, amando, a partir de 1670, do Governador do
Brasil, Alexandre de Souza Freire. A palavra mocambo, nome de povoado do atual
Município de Frei Paulo, significa casa do quilombo.
Os negros
formavam quilombos ou vagavam à toa, famintos, desesperados pelas matas que
cobriam a maior parte do território sergipano. Uns não resistem aos
sofrimentos, regressam “procurando padrinhos ou pessoas que os compre”. Outros
seguem em frente conduzidos pelo
sofrimento transformado em ódio. Perseguidos, aterrorizados, cabia-lhes, nessa
sobrevivência agoniada, a autoria de violências, mas o escravo não é autor e
personagem único dessas indesejadas ilicitudes.
Os escravos
fugiam e constituíam quilombos. Porém não descansavam, procurados e perseguidos,
dia e noite, pelas autoridades e alguns senhores. Não eram todos que se
prestavam a este papel ingrato, alguns senhores chegavam a proteger os cativos
fugidos.
As prisões e
perseguições não param. Os escravos fugiam, resistiam, sofriam. Não tinham
opção: de um lado o castigo do senhor, do outro, a perseguição da polícia. Eles
não se entregavam. Preferiam morrer lutando. Lutavam. Morriam. Os sobreviventes
contavam a história. Os cativos, de certo modo, viviam mortos, morriam vivendo.
Os quilombos, a esperança, eram uma possibilidade do viver livre, promessa da
vida possível. As rebeliões geradoras dos quilombos não eram, ao contrário do
que pensava Nina Rodrigues, guerras santas, religiosas, mas a presença e a
reação do homem, afirmação de classe, lutas de classe bem definida – diz João
Ribeiro.
Mas os negros,
depois da Abolição e da República, continuaram hostilizados, segregados da
sociedade oficial. Pequenos incidentes e até mesmo crimes planejados por
monarquistas ressentidos, inconformados, eram não raro atribuídos aos antigos
escravos. Jornais da época registram frequentes incêndios de canaviais, dedos
endurecidos apontando para os negros inocentes. Tais crimes, na verdade, eram
insuflados ou manipulados por monarquistas saudosistas, forma, certamente, de
eles manterem os escravos então livres envolvidos num clima de permanente
desconfiança e suspeita.
Fonte: Figueiredo, Ariosvaldo. O Negro e a violência do branco: o negro em Sergipe | prefácio de Clóvis Moura | Rio de Janeiro, J. Álvaro, 1977. 120 p.
Priscila Tintiliano.
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
O Herói Negro Sergipano
JOÃO MULUNGU, NEGRO LIBERTÁRIO, último e o mais sagaz líder dos quilombos de Sergipe
D’EL Rey, nascido nas senzalas do engenhos Flor da Roda, em Laranjeiras, no ano
de 1851 (presumível), escravo de propriedade de João Pinheiro de Fraga, dono do
Flor da Roda.
João Mulungu, amplamente citado por
diversos historiadores, inclusive pelo brasilianista Robert Conrad, como o mais
importante defensor da causa negra, na luta contra a escravidão, além de entre
outras citações, a cognominação de Zumbi Sergipano.
Dentre os companheiros de João Mulungu, no
ato da revolução escrava em Sergipe, destaca-se: Manoel Jurema, Pedro, Quirino,
Galdino, dentre outros.
Acredita-se que desde os anos 60 que João
Mulungu fazia parte dos grupos revolucionários, tendo em vista que Laranjeiras
era tida e havida como o berço das ideias progressistas e revolucionárias de
Sergipe, palco, portanto, da difusão dos pensamentos humanistas e d as ações
liberais como prática de liberdade, além de ter o maior e mais complexo
contingente de negros em Sergipe, provenientes de diversas tribos e nações,
combinada com as pressões internas a favor do abolicionismo, no que pese o
apartheid imposto pela Igreja através das irmandades.
O quilombo predatório ou de estrada, como
estratégias externas dos antigos quilombos africanos, foi o instrumento mais
utilizado por João Mulungu, pois a intinerância servia como cortina de fumaça
contra os batalhões da polícia em perseguições constantes. A tônica libertária
como objetivo meta, propiciou, em diversos levantes, liberdade através das
fugas, a milhares de escravos, além de fortalecer o contingente em todos os
municípios de Sergipe, como ponto de abrigo e apoio estratégico.
Ao longo de sua trajetória à frente da
revolução escrava, sua liderança foi sempre contestada pelo sistema e pelo
poder, que sempre se esmeraram para tê-lo como troféu, na batalha de manutenção
do poder.
Suas técnicas, amplamente identificadas e
utilizadas pelo sistema contra opositores e, após a execução dos atos,
declinavam a autoria a João Mulungu; foi assim por muito tempo que o governo
provincial, deu combate aos seus opositores políticos.
Por traição de um dos escravos do Flor do
Roda, de nome Seberino, João Mulungu,
foi capturado, coincidentemente nas terras do
Engenho em que nasceu e evadiu-se quando descansava com seus companheiros
à sombra dos bananais. Às 12 horas do dia 19 do janeiro, em Laranjeiras, e
imediatamente conduzido ao quartel de Divina Pastora sob guarda do capitão João
Batista da Rocha Banha, comandante da diligência.
No afã de notoriedade e na pressa em
divulgar o ato e sobressair no cenário nacional, o governo provincial dava dimensão
ao caso em seus Relatórios à Assembléia Provincial, de 1º de janeiro, fevereiro
e março, chegando a afirmar em relatório
de 1º de março, que “Pode ter 25 anos mais ou menos, é crioulo, de estatura
regular, e como bem o qualificam ‘um pouco ladino e insinuante, resignado hoje
com a sua sorte, preferindo contudo ser enforcado na praça pública a voltar
para casa do seu senhor’”. Em outro documento, o próprio governo afirma que
João Mulungu, “...o mais forte elemento da resistência, o calhambola João
Mulungu, e todos dizem ser o mais audaz, o chefe dos escravos fugidos, foi
capturado no dia 13 de janeiro corrente...”.
Efetivamente o presidente da província, João
Ferreira de Araújo Pinho, iniciou toda uma manipulação em torno do nome de João
Mulungu, divulgando sua morte, quando na verdade desde 1835 não poderiam mais
enforcar escravos no Brasil e diversos documentos, mesmo confusos, demonstram
que até dezembro João Mulungu estava vivo, sendo transferido de cadeia em
cadeia, sendo inclusive, condenado a um ano de galés, enquanto seu companheiro
Manoel Jurema era condenado à pena máxima. Efetivamente, João Mulungu foi uma
presa preciosa nas mãos do governo, que, querendo mostrar serviço, declara
extintos os quilombos em Sergipe, com a prisão e morte de João Mulungu, o que eu
na prática só fez recrudescer a ação, tendo em vista as manifestações isoladas
de diversos grupos, em toda a província, até o alvorecer de maio de 1888.
A prisão de João Mulungu e seu confinamento
histórico só serviu de instrumento para promoções das autoridades que serviam
ao sistema e tinham no mascaramento do negro sua meta de vida.
A luta do negro em Sergipe, na busca da
liberdade contra a escravidão, foi uma das mais tenazes e ferozes do Brasil,
como também feroz foi a escravidão, onde os delírios dos senhores, tornava a
escravidão ou seja os escravos, passível de qualquer penalidade, pela violência
praticada. Paradoxalmente diversos senhores de engenho davam guaridas aos
quilombolas, além de praticarem abertamente o tráfico interprovincial dos
escravos reclamados pela justiça.
João Mulungu, marco da resistência em
Sergipe, simboliza as aspirações democráticas dos sergipanos, independente da raça
ou posição econômica. Herói negro sergipano, cristalizando os anseios de
liberdade do povo brasileiro em todos os momentos em que a opressão determina a
ação e comportamento dos homens. Lutou, não pela sua liberdade, mas pela liberdade
do seu povo, seu nome, em Laranjeiras, em Sergipe e no Brasil. Deve ser tão
repeitado e reverenciado como tantos outros heróis que deram sua vida pela liberdade
de sua gente, dentre eles:
Zumbi
Lucas Dantas
Manoel Balaio
Chico Rey
Ambrósio Isidório
João Cândido
Manoel Congo
Luiza Mahim
Zeferina
Pedro Cosme, etc.
Seu reconhecimento oficial começou pelo
Legislativo de Laranjeiras, através do Decreto-Lei 407, de 08 de agosto de
1990. Em Aracaju, através da Lei 1.856, de 14 de julho de 1992 e finalmente o
Legislativo Estadual o reconhece através do Decreto-Lei 4.192, de 23 de dezembro de 1999, consagrando
o 19 de janeiro como o Dia Estadual de Luta da Comunidade Negra, em honra ao
Herói Negro de Sergipe: João Mulungu, que logo depois saudou Quintino de
Lacerda, Herói Negro de Itabaiana sagrado em setembro de 2001, pela Lei
Municipal nº 965.
Fonte: D'Acelino, Severo―Panáfrica
África Iya N'la / Severo D 117 p D'Acelino―Aracaju: MemoriAfro, 2002, 169p.
Priscila Tintiliano
terça-feira, 16 de outubro de 2012
POEMA: DUAS PALAVRAS
Meu irmão
Vida de
negro é difícil
Não o deixam
participar
Não o deixam
pensar
Não o querem
falando.
Vida de
negro
Meu irmão, é
difícil
Como quê!
Ele se
esconde
Se veste de
branco
Para escapar
Para viver.
Sem ser lobo
Vestindo uma
pele
Ele sofre
No silêncio
da maioria
E, saber
minoria.
“Invisível”.
Negro nem
dormindo
descansa.
Ele pensa no
amanhã
Até quando,
a farsa
Quando
despirá a máscara!
Ele age e
milita
É duas vezes
agredido
Solta sua
revolta
E grita!
Chega de
mágoa, é preciso lutar
E luta!
Pelo que não
fez
Pelo que vai
fazer
É sempre em
dose dupla
A sua
afirmação
Meu irmão
Como é duro
e difícil
A vida de
negro
Mas aqui
para nós
Sem
masoquismo
Ser
negro...é bom demais.
Fonte: D'Acelino, Severo―Panáfrica África Iya N'la / Severo D 117 p D'Acelino―Aracaju: MemoriAfro, 2002, 169p.
Priscila Tintiliano
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
PANÁFRICA, ÁFRICA IYA N'LA
PANÁFRICA, ÁFRICA IYA N’LA
A ideia do Panafricanismo nos remete à saga
do genocídio do continente africano. A diáspora homicida.
No sentido de manutenção das raízes, implica
no pensamento da matriz cultural e assegurar o pensamento, o sentimento da
complexidade material e espiritual, de todo o grupo étnico, arrancado do
continente com a escravidão e espalhado pelo mundo.
O panafricanismo, através do depoimento de
Abdias Nascimento nos conduz ao espírito político na resistência dos afros em
todos os quadrantes, na postura universal dos direitos de ancestralidade e
participação da comunidade negra nas decisões das soluções dos seus problemas.
Teoria e prática da unidade do mundo
africano, sem nenhuma conotação racista a unidade baseia-se na comunidade dos
fatos históricos, na herança cultural e na identidade de destino em face do
capitalismo, do imperialismo e do colonialismo.
Reivindica o Panafricanismo a unificação do
mundo africano, aliança concreta e progressista com a diáspora unida.
No Brasil, a ideia e prática do
Panafricanismo está registrada através dos diversos movimentos sociais,
políticos e culturais, onde o negro é protagonista, através das resistências,
nos candomblés, ponto de irradiação da cultura afro; quilombos, rurais e
urbanos; escolas de samba e outras manifestações sociais e culturais dos
movimentos reivindicatórios das entidades negras em que revivendo uma tradição
em busca de resgatar a identidade, mantém uma luta ligada intimamente à terra
original, onde os negros espalhados em todo território mantém, apear das
dificuldades de comunicação imposta pelo sistema e pela pobreza, contatos que
lhe são possíveis com o mundo africano e a luta negra internacional.
O dado mais
significativo em torno do movimento panafricanista, nos remete à saga da Rainha
Ginga e ao trabalho de Marcus Garvey, e, evidentemente, Zumbi dos Palmares.
Em Sergipe― após o
movimento histórico de libertação, através das ações dos líderes quilombolas,
em que se destacou a figura de JOÃO MULUNGU, covardemente assassinado pelo
sistema escravista dos senhores de engenhos, em janeiro de 1876―, o resgate de
sua memória e seu lugar na história, inclusive Sergipe no Panafricanismo e a
luta pela identidade e dignidade dos afro-sergipanos.
Hoje, após mais de
cem anos da chamada abolição, a luta ainda é pela identidade e participação e
do reconhecimento do negro; assinalando a importância social e política das
culturas afro-sergipanas:
·
- assinalando a lamentável condição do negro em Sergipe;
- assinalando que o linchamento social é pior que o linchamento físico;
- assinalando o racismo mascarado em Sergipe;
- assinalando que o negro continua escravo;
- assinalando que o negro continua sendo objeto de estudos;
- assinalando que o negro não é selecionado e preferido para as mais baixas ocupações;
- assinalando que ao negro não é dada condição de participar das decisões para solução dos seus problemas;
- assinalando que o negro continua sendo o maior contingente de analfabetos, desempregados e marginais;
- assinalando o genocídio sistemático da criança abandonada e a esterilização da mulher negra;
- assinalando que o negro é o maior contingente populacional dos presídios e delegacias do Estado;
- assinalando o racismo nas escolas e na educação em Sergipe;
- assinalando que a expressão “boa aparência” é a marca do racismo e da discriminação do negro no comércio e no mercado de trabalho em Sergipe.
F
Fonte: ―Panáfrica África Iya N'La / Severo D 117 p D'Acelino―Aracaju: MemoriAfro, 2002, 169 p.
Priscila Tintiliano
f
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
O ENIGMA DE PALMARES
A Guerra dos Palmares foi um dos episódios de resistência escrava mais notáveis na história da escravidão do Novo
Mundo.
Ainda que as estimativas das fontes coevas e dos historiadores sobre o número total de habitantes divirjam bastante — de um mínimo de 6 mil a um máximo de 30 mil pessoas –,não há como negar que as comunidades palmarinas, dada a extensão territorial e a quantidade de escravos fugitivos que acolheram, tornaram-se o maior quilombo na história da América portuguesa. Suas origens datam do início do século XVII,mas sua formação como grande núcleo quilombola se deu apenas no contexto da invasão holandesa de Pernambuco,quando diversos escravos se aproveitaram das desordens militares e fugiram para o sul da capitania.
As comunidades rebeldes que então se organizaram resistiram a diversas incursões da Companhia das Índias Ocidentais e, após a expulsão dos holandeses, a ataques das tropas luso-brasileiras.
Nas décadas de 1670 e 1680, os africanos, crioulos e descendentes
alojados em Palmares eram vistos pelas autoridades metropolitanas
como “holandeses de outra cor”, por conta da ameaça que representavam
à ordem colonial portuguesa na América.Sua derrota pela força das
armas só ocorreu em meados da década seguinte,após um conflito secular
com dois dos maiores poderes coloniais europeus do mundo
moderno. Antes da revolução escrava de São Domingos (1791-1804) e
das grandes revoltas abolicionistas do Caribe inglês no primeiro terço
Ainda que as estimativas das fontes coevas e dos historiadores sobre o número total de habitantes divirjam bastante — de um mínimo de 6 mil a um máximo de 30 mil pessoas –,não há como negar que as comunidades palmarinas, dada a extensão territorial e a quantidade de escravos fugitivos que acolheram, tornaram-se o maior quilombo na história da América portuguesa. Suas origens datam do início do século XVII,mas sua formação como grande núcleo quilombola se deu apenas no contexto da invasão holandesa de Pernambuco,quando diversos escravos se aproveitaram das desordens militares e fugiram para o sul da capitania.
As comunidades rebeldes que então se organizaram resistiram a diversas incursões da Companhia das Índias Ocidentais e, após a expulsão dos holandeses, a ataques das tropas luso-brasileiras.
Nas décadas de 1670 e 1680, os africanos, crioulos e descendentes
alojados em Palmares eram vistos pelas autoridades metropolitanas
como “holandeses de outra cor”, por conta da ameaça que representavam
à ordem colonial portuguesa na América.Sua derrota pela força das
armas só ocorreu em meados da década seguinte,após um conflito secular
com dois dos maiores poderes coloniais europeus do mundo
moderno. Antes da revolução escrava de São Domingos (1791-1804) e
das grandes revoltas abolicionistas do Caribe inglês no primeiro terço
do século XIX, o episódio de Palmares só teve equivalente
na I Guerra
Maroonda Jamaica (1655-1739) e na Guerra dos Saramaca no
Suriname
(1685-1762). Nesses dois casos, entretanto, os
quilombolas conseguiram
vencer as tropas repressoras, forçando autoridades e
senhores a
reconhecerem a liberdade dos grupos revoltosos.
A história da derrota do grande quilombo palmarino deu origem a
um enigma que há certo tempo chama a atenção dos especialistas em
escravidão brasileira: por que não houve outros Palmares na história do
Brasil? O ponto é importante,pois a atividade quilombola se ampliou no
século XVIII, com o aumento do volume do tráfico negreiro transatlântico
e a formação dos núcleos mineratórios no interior do território,
assumindo diferentes modalidades de norte a sul da América portuguesa.
Afora as numerosas comunidades quilombolas, de dimensões e
duração variáveis, o Brasil viu aparecer no início do
século XIX outra
forma de resistência escrava coletiva, presente no Caribe
inglês havia
bom tempo:o ciclo de revoltas africanas que agitou o
Recôncavo Baiano
entre 1807 e 18353.
A resposta que os historiadores forneceram ao enigma aponta para a
mudança na legislação escravista portuguesa. Após Palmares, dizem
eles, houve uma progressiva especificação das funções do capitão-domato
— responsável legal nas diferentes localidades da América portuguesa
pela captura de escravos fugitivos — e delimitação, nas letras da
lei, do que seria uma comunidade quilombola. A institucionalização da
figura do capitão-do-mato e a definição de quilombo como qualquer
ajuntamento composto de alguns poucos escravos fugitivos teriam
tolhido, já no nascedouro, a formação de comunidades
rebeldes com as
proporções de Palmares.
Fonte: Marquese, Rafael de Bivar. “A dinâmica da escravidão no Brasil. Resistência, tráfico negreiro e
alforrias, séculos XVII e a XIX”. Novos Estudos (74). Março, 2006
Priscila Tintiliano
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
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